Minas Gerais não deve competir com ações federais, seu papel é complementar
Na semana passada, visitei uma família em Belo Horizonte. Numa casa simples, vi avós, jovens, mães e trabalhadores informais com baixa escolaridade, bicos, espera por saúde, moradia frágil e pouca perspectiva. Ali, a pergunta de um governante não pode ser só “essa família recebe algum benefício?”, mas “que direitos ainda não chegaram?”
Até 1988, assistência social foi tratada como caridade. A Constituição a incorporou à seguridade social. Em 1993, com Itamar Franco, a Loas consolidou a virada: direito do cidadão e dever do Estado.
Vieram BPC, Cadastro Único, Bolsa-Família e SUAS (Sistema Único de Assistência Social). Mas erramos ao tratar o Cadastro Único só como fila de benefício. Revela crianças fora da escola, escolaridade, moradia, pessoas com deficiência sem apoio, idosos vulneráveis, renda, saneamento e territórios esquecidos.
Esse mapa parte de uma convicção: a família é a maior estrutura de proteção social. Antes de qualquer programa, quase sempre ela acolhe, alimenta, cuida e protege quando tudo falta. Família primeiro sempre. O papel do Estado não é substituir a família; é fortalecê-la.
Mapa de Desproteções
Minas precisa fazer do Cadastro Único um mapa estadual de desproteções: Cras, Creas, escola, estrada, habitação, saneamento e transporte. Com ele, o governador deve alinhar os 853 prefeitos e levar ao Presidente da República onde faltam apoio técnico, habitação, qualificação e saneamento. O pobre é o mesmo. A família do Bolsa Família também precisa de escola, moradia, saúde, segurança, trabalho e transporte. A palavra-chave é orquestração. O governo federal cuida da renda. Os municípios estão na ponta. Ao Estado cabe apoiar, capacitar, cobrar resultado, coordenar, defender quem tem menos força e financiar. Também é preciso busca ativa. O Estado não pode esperar que a família mais pobre descubra qual direito tem ou onde bater. Toda pessoa que precisa deve ser encontrada. A lógica de “Porta a Porta” deve virar método permanente: dado, orientação, território e visita.
Meta Social
Nada disso funciona sem rigor técnico. Se o Estado tem meta fiscal, precisa ter meta social. Se mede despesa e dívida, deve medir, articuladamente, baixa escolaridade, evasão escolar, insegurança alimentar, moradia precária, recursos sociais parados, saída da pobreza, saneamento e violação de direitos. O sucesso não é só quantas pessoas foram atendidas, mas quantas recuperaram autonomia, dignidade, estudo, moradia, renda e saúde. O pobre tem direito de deixar de ser pobre.A execução mostra gravidade. Em 31/05/2026, o SUASWeb apontava R$ 6.474.228,77 no Fundo Estadual de Assistência Social de Minas Gerais e R$ 37.016.691,24 no Fundo Municipal de Assistência Social de Belo Horizonte. Saldo em conta não é irregularidade automática, é alerta: recurso social parado não vira busca ativa, capacitação, Cras, Creas, família protegida e visita. Minas Gerais não deve competir com o Bolsa Família. O papel do Estado é complementar: ampliar proteção especializada, apoiar municípios, articular assistência social com educação, habitação, saneamento, saúde, trabalho e transporte, capacitar equipes, fortalecer o Piso Mineiro da Assistência Social, transformar recursos parados em serviços e usar bem o Fundo de Erradicação da Miséria.
Pobrezas diferem
Pobreza não cabe a uma secretaria só. Casa bem localizada, escola que segura o jovem, estrada, saúde que informa a fila e transporte que aproxima o trabalhador combatem pobreza. O problema é cada área agir sem mapa, meta e roteiro. As pobrezas diferem: a favela metropolitana não é o Jequitinhonha; a rural não é a urbana; o pequeno município não tem a estrutura de uma grande cidade. Minas Gerais tem instrumentos, prefeitos e servidores. Falta política integrada, orientada a resultado, permanente, técnica e territorializada. A área social não pode ser prêmio político. Precisa de cobrança, comando técnico e metas. Ninguém em Minas Gerais pode ser esquecido: nenhuma criança fora da escola sem busca ativa; nenhuma família sem informação; nenhum município sozinho; nenhuma pessoa invisível ao Cadastro Único; nenhum recurso parado enquanto falta serviço na ponta. Minas Gerais precisa orquestrar a erradicação de misérias e pobrezas, fortalecendo as famílias e evoluindo sem que ninguém fique para trás.


