A educação pública de Minas Gerais chegou a um ponto em que não decidir virou erro. O problema deixou de ser acesso e passou a ser aprendizagem. A demografia fechou a janela de conforto e impôs urgência.
O primeiro dado incômodo é demográfico. Entre 2011 e 2023, o número de crianças nascidas em Minas Gerais caiu cerca de 10%, segundo o DataSUS. Estão nascendo menos crianças a cada ano. Em 2034, o estado será mais velho, com menos jovens e menor margem fiscal. Errar agora custa uma geração inteira.
O segundo dado incômodo é estrutural. A matrícula na educação básica caiu de pouco mais de 5,1 milhões em 2002 para cerca de 4,3 milhões em 2024, segundo o Censo Escolar. No mesmo período, o custo por aluno quase dobrou.Menos alunos, estrutura praticamente intacta, gasto crescente. Essa conta não fecha.
O terceiro dado incômodo é pedagógico. Criança matriculada não significa criança aprendendo. O Brasil avançou no acesso formal, falhou em garantir aprendizagem sólida. A alfabetização segue frágil, os ganhos nas séries finais são modestos e o ensino médio se tornou o maior gargalo do sistema.
Os números confirmam isso. Em Minas Gerais, a nota média de matemática no ensino médio caiu de 279 pontos em 2005 para 269 pontos em 2023, segundo o Saeb. O aluno que conclui o ensino médio hoje tem desempenho pior do que o de 20 anos atrás. O sistema regrediu. Isso é inaceitável.
O quarto dado incômodo desmonta um mito confortável. Comparações entre escolas estaduais e municipais não mostram diferença relevante de desempenho. O fator decisivo não é quem administra a escola. É como ela funciona. O nível socioeconômico pesa mais do que a placa na porta.
O quinto dado incômodo diz respeito à progressão. Sem aprender o básico em cada etapa, o aluno não avança na seguinte. O Brasil está abaixo do limiar mínimo de aprendizagem. Houve avanços pontuais nas séries iniciais em poucos lugares. O ensino médio segue como ruptura negativa.
As exceções conhecidas são municipais. Coruripe, Sobral e Teresina organizaram o básico com currículo simples, método baseado em evidência, gestão focada na rotina e avaliação para corrigir o que não funciona. Mesmo nesses casos, o ensino médio quebra a trajetória.
O sexto dado incômodo está na relação com o mundo do trabalho. O ensino médio atual não prepara adequadamente nem para a universidade, nem para o mercado. Dados da Pnad mostram que quem conclui o ensino médio técnico tem maior ocupação, menor subutilização e renda mais alta. Tornar essa etapa relevante é imperativo.
A unidade decisiva da política educacional é a sala de aula. Programas, eventos e modismos desviam a escola de sua função principal. Educação exige currículo claro, método consistente, material adequado, professor presente e orientado, avaliação para corrigir a prática e gestão que proteja a rotina.
Também é inevitável reorganizar a oferta no território. Fora da capital, a rede estadual é pulverizada, com escolas pequenas e pouco eficientes. Consórcios intermunicipais permitem escala e escolas de tempo integral de qualidade. Não existe solução única.
A resposta precisa ser direta. Alunos alfabetizados ao final do 1º ano. Ensino médio que leve a algum lugar, com expansão do ensino técnico. Gestão focada em aprendizagem, presença e rotina. Valorização do professor como condição para ensinar bem.
A escola de hoje garante matrícula. Minas Gerais precisa de uma escola que garanta aprendizagem. A janela é agora. Depois, o custo será alto demais.