Odeio ditadores. Odeio ditaduras. Nicolás Maduro era um ditador. A Venezuela continua uma ditadura. E a pergunta para quem se importa de verdade com o povo venezuelano é: qual é o plano?
A queda de um ditador nunca é um problema. É um alívio. O problema começa no dia seguinte. A história política dos séculos XX e XXI está repleta de episódios em que a substituição de um autocrata não produziu democracia.Produziu outro autoritarismo ou tutela.
A Venezuela não chegou a esse ponto por acaso. O chavismo construiu, ao longo de mais de duas décadas, um regime baseado em aparelhamento das Forças Armadas, concentração de poder, destruição institucional e submissão do Judiciário. Os dados são conhecidos. O Democracy Index, da The Economist, classifica a Venezuela como regime autoritário há anos. A Freedom House a coloca entre os países sem liberdades políticas mínimas. Miséria, repressão cotidiana e êxodo de milhões foram consequências evidentes.
Tudo isso mostra a natureza criminosa do regime de Maduro. A condenação é inequívoca. O ponto central é outro.
A ação dos Estados Unidos na Venezuela não pode ser analisada como simples defesa da democracia. Ela integra um movimento maior de reorganização do poder global, no qual direito internacional, normas e previsibilidade cedem espaço a esferas de influência.
Aqui entra George Orwell. Em “1984”, o mundo se organiza em blocos de poder. Não é geografia. É política. Oceania, Eurásia e Lestásia definem verdades, escolhem inimigos e exercem soberania sem limites. A exceção vira regra. Quem decide é o big brother.
Em 2026, nossa “Oceania” é a América. Nossa “Eurásia” é a fronteira entre Europa e Ásia, com a Rússia. Nossa “Lestásia” é o Leste Asiático, com a China. Quem insiste em democracia e liberdade passa a ser tratado como obstáculo sistêmico.
Isso não é literatura. É diagnóstico. Os Estados Unidos não capturaram Maduro por razão democrática. Derruba-se onde é possível, não onde é justo. Isso não transforma Maduro em vítima. Transforma a democracia em instrumento retórico.
Larry Diamond, em “Ill Winds”, descreve esse cenário com precisão. Democracias sofrem dupla pressão. De um lado, autocracias assertivas. De outro, democracias que corroem suas próprias regras ao abandonar o Estado de direito por conveniência estratégica. O resultado é perda de autoridade moral, densidade normativa e previsibilidade.
A intervenção norte-americana na Venezuela se insere nesse ponto de tensão. Sem plano de transição e fora de marco claro de legalidade, cria-se precedente perigoso. Práticas excepcionais se repetem. O direito vira opção.
Bons fins exigem prudência. Derrubar um tirano não equivale a construir democracia. Na Venezuela seguem de pé Forças Armadas sem controle civil efetivo, Judiciário fragilizado, sistema eleitoral desacreditado e aparato estatal autoritário.
A Venezuela tem um ativo: uma oposição com apoio social amplo e legitimidade eleitoral reconhecida. Ainda assim, ativos políticos não garantem estabilidade. Democracias exigem justiça, pactos, previsibilidade e reconstrução institucional.
Sem isso, o risco é trocar autoritarismo doméstico por tutela externa. Em cenário pior, inaugura-se novo ciclo de frustração, instabilidade e violência política.
A América Latina também falhou. Conivência ideológica, silêncio estratégico e titubeio político abriram espaço para a intervenção externa. O custo agora é pago em soberania fragilizada e precedentes perigosos.
O mundo entra em 2026 sob sinais de alerta. Democracias recuam. Autocracias avançam. Nunca duas democracias plenas entraram em guerra entre si. O problema é que elas estão se tornando raras.
Por isso, “Feliz 1984!” não é ironia. É advertência. A Venezuela merece liberdade. O mundo merece coerência. Sem isso, a distopia deixa de ser literatura e vira rotina. Verdade.