Minas Gerais surgiu de ciclos econômicos. Ouro no século XVIII, diamante no Jequitinhonha, café na Zona da Mata e no Sul, ferro no Quadrilátero Ferrífero. Cada ciclo moveu gente, ergueu cidades, estruturou instituições. Nenhum deles colocou o estado no ritmo de desenvolvimento das regiões do mundo que souberam transformar riqueza natural em riqueza social duradoura.

Esse é o dado central da nossa história econômica. Extraímos muito. Planejamos pouco. Transformamos menos ainda.

O mundo vive um novo ciclo. A Agência Internacional de Energia projeta que a demanda por minerais críticos pode crescer até seis vezes até 2040. Um veículo elétrico consome cerca de seis vezes mais minerais do que um carro convencional. Cobre, grafita, lítio, manganês, níquel, nióbio, silício de alta pureza, tântalo, telúrio e terras-rarassão insumos estratégicos da nova indústria global e da transição energética.

Minas Gerais está no centro desse tabuleiro. O estado concentra praticamente 100% da produção brasileira de lítio, cerca de 80% da produção mundial de nióbio e mais de 70% da produção nacional de grafita, além de potencial relevante em manganês, silício e terras-raras. São dados do setor mineral, da Codemge, do Serviço Geológico do Brasil e de organismos internacionais.

O governo atual percebeu parte dessa oportunidade e lançou o Vale do Lítio. Reconheço o movimento. Dados oficiais de 2025 indicam R$ 6,3 bilhões em investimentos anunciados, cerca de 4.900 empregos diretos e arrecadação de Cfem de R$ 38,5 milhões em 2023 no conjunto dos municípios envolvidos. Houve aumento de ICMS e ISS locais. Isso importa.

Ainda assim, é pouco diante da escala do desafio. Anúncio não é política de desenvolvimento. Ciclo mineral sem estratégia repete a história.

Nenhuma política estadual de minerais críticos se sustenta sem alinhamento federal. Não existe transição energética com juros reais elevados, carga tributária instável, infraestrutura deficiente e licenciamento imprevisível. O Brasil anuncia incentivo de um lado e eleva custo do outro. Nesse ambiente, cadeias produtivas não se formam.

O problema não se resume ao custo financeiro. Muitos projetos não escalam porque falta acesso a capital disposto a assumir o risco próprio da fase de desenvolvimento mineral, longa e incerta. Não há política de financiamento que compreenda esse ciclo e compartilhe risco.

A corrida por minerais críticos é geopolítica. A China financia projetos com horizonte de décadas. O Oriente Médio estrutura fundos estatais tratando minerais críticos como ativos estratégicos. Os Estados Unidos priorizam o tema, financiando como investidores privados comuns. O Brasil segue descoordenado e corre o risco de repetir o papel histórico de fornecedor de matéria-prima.

A história de Minas Gerais é clara. Em 1720, o ouro financia a Coroa. Em 1820, a mineração industrial traz capital estrangeiro sem encadeamento duradouro. Em 1920, o ferro promete industrialização com baixo salto tecnológico. Em 2020, os minerais críticos reapresentam a promessa. Se juros, infraestrutura, licenciamento e coordenação nacional seguem iguais, por que o resultado seria diferente?

O problema não é só econômico. É institucional. Estudos recentes reforçam que mineração que ignora água, gente e regras perde legitimidade, encarece projetos e trava o desenvolvimento. Segurança jurídica depende de governança real.

Araxá expõe o contraste. O estado garantiu 25% do lucro líquido do nióbio até 2070 por meio da Codemge. A Codemig já funciona como fundo patrimonial mineral. O desafio não é criar nova sigla. É definir governança, blindagem política e uso estratégico desse patrimônio.

O caminho é conhecido. Fundo patrimonial com regras claras. Coordenação federativa real. Verticalização seletiva e competitiva. Grafita precisa virar ânodo. Terras-raras precisam virar ímã. Lítio precisa avançar para baterias. Capacidade técnica existe. Falta decisão política.

Outro ciclo para Minas Gerais não é repetir o passado com nomes novos. É transformar riqueza do chão em riqueza social mensurável. O governo atual deu passos iniciais. Ficou aquém do que o estado exige. A escolha está posta: mais um ciclo ou um salto de verdade.