Atraso, problemas de planejamento e falta de tecnologia
Um dos espaços mais simbólicos de Belo Horizonte, a Praça Governador Israel Pinheiro — carinhosamente conhecida como Praça do Papa — está em obras desde fevereiro de 2024. O projeto, parte do programa Centro de Todo Mundo, no bairro Mangabeiras, foi orçado em R$ 11,1 milhões, com recursos da Prefeitura e do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF). A execução é da Sudecap. Um ano depois, o cenário ainda é de tapumes, canteiros inacabados e justificativas vagas para a lentidão dos trabalhos. A cidade assiste, mais uma vez, a uma oportunidade desperdiçada.
O caso é emblemático não apenas pela importância simbólica e afetiva da praça, mas também pelo padrão repetido de intervenções públicas mal planejadas. Informações de bastidores indicam que somente após o início da obra foi identificado que o piso da praça possuía características especiais — com mosaico tombado e especificidades técnicas que dificultariam sua substituição. O fornecimento do material, alegam, dependeria de um único fornecedor no Brasil. A constatação tardia de um dado tão básico revela o problema central: ausência de diagnóstico técnico preciso antes da contratação da empresa executora.
Essa falha de origem compromete todo o ciclo da obra: cronograma estendido, aumento de custos, insegurança contratual e desconfiança da população. Situações assim são recorrentes no Brasil e colocam em xeque a qualidade da gestão pública. O que está faltando? Planejamento? Sim. Mas, acima de tudo, falta tecnologia.
O uso de ferramentas como o laser scanner — já amplamente difundidas em obras complexas ao redor do mundo — poderia ter evitado os atrasos e os aditivos. Essa tecnologia permite o mapeamento tridimensional de um espaço físico com extrema precisão, identificando, ainda na fase de projeto, todas as interferências, sobreposições e elementos que exigem cuidados especiais. O que hoje serve como justificativa tardia — “não sabíamos da singularidade do piso” — teria sido detectado desde o início, com transparência e dados objetivos.
O laser scanner já foi utilizado, por exemplo, na reconstrução da Catedral de Notre-Dame, em Paris, após o incêndio que destruiu parte da estrutura. No Brasil, o Governo de Minas Gerais empregou a tecnologia para diagnosticar hospitais regionais com obras paradas e planejar sua retomada. Em Belo Horizonte, uma empresa mineira utilizou o laser scanner para mapear o edifício anexo do antigo Sulacap-Sulamérica, na avenida Afonso Pena, devolvendo à praça original suas características históricas com sucesso — ainda que, ali também, a tecnologia tenha chegado tardiamente.
Diante dos benefícios concretos dessa ferramenta, é urgente que o seu uso seja regulamentado e exigido por lei em todas as licitações públicas que envolvam patrimônio, áreas tombadas e obras complexas.
Isso permitiria o diagnóstico técnico preciso antes da contratação da obra, a previsibilidade orçamentária, cronogramas realistas, a redução do número de aditivos contratuais e a transparência na fiscalização e prestação de contas à sociedade. E essa tecnologia se faz com uma pessoa, atrelada a um equipamento, caminhando pelo espaço que vai sofrer a intervenção e transformando todo o local em dados digitais. Simples assim.
A obra da Praça do Papa está lenta, mas o tempo segue correndo. Já se passaram mais de 400 dias desde o início da intervenção e não há entrega. A cada dia, aumenta a frustração da população — e a deterioração da confiança no poder público. Para que Belo Horizonte avance, é preciso romper com a lógica do improviso e da obra que começa para depois se descobrir o problema.
O que está em jogo é mais que uma praça: é a credibilidade de uma cidade que precisa se reinventar com inteligência, precisão e responsabilidade — sem desperdício do que já estamos perdendo: tempo.
P.S.: antes que alguém me pergunte por que não protocolei um projeto de lei dessa natureza durante meus mandatos, lembro que vereador não pode criar norma que gere qualquer tipo de gasto para o Poder Executivo. Um projeto de lei como esse só pode ter um autor: o prefeito.