Minas Gerais tem 853 municípios. É o estado mais municipalizado do Brasil. Mais de 70% dessas cidades têm menos de 20 mil habitantes, segundo o IBGE. Essa geografia impõe um desafio estrutural à saúde pública: garantir acesso com equidade em um território desigual, diverso e extenso.

Avançamos mais do que a média nacional na organização do SUS. A regionalização está consolidada. Microrregiões organizam a média complexidade. Macrorregiões concentram a alta complexidade. Instrumentos como o Plano Diretor de Regionalização, o Plano Diretor de Investimentos e a Programação Pactuada Integrada existem e funcionam.O estado coordena. O dinheiro acompanha o paciente. Isso é um patrimônio institucional que precisa ser preservado.

Reconhecer avanços não significa ignorar limites. A regionalização resolveu parte do problema da escala, não eliminou vazios assistenciais nem reduziu, como deveria, o sofrimento diante da fila. A regulação única estadual, por meio do SUS Fácil, é diferencial importante; ainda assim, opera com assimetrias, fragmentações e pouca transparência.

A atenção primária à saúde em Minas Gerais é referência nacional. A cobertura supera 80%, segundo o DataSUS. Isso organizou o cuidado e reduziu demanda evitável. Ainda assim, a resolutividade é desigual. Onde falta apoio clínico e integração com a atenção secundária, a fila reaparece na UPA ou no hospital.

Minas convive com a tripla carga de doenças. Mais de 70% das mortes decorrem de enfermidades crônicas não transmissíveis, segundo o Ministério da Saúde. Diabetes, hipertensão e obesidade crescem. Doenças infecciosas persistem. Acidentes, transtornos mentais e violência ampliam pressão.

O envelhecimento acelera esse cenário. Projeções do IBGE indicam que Minas terá mais idosos do que crianças até 2040. Isso exige cuidado contínuo, coordenação entre serviços e acompanhamento longitudinal. Um sistema centrado apenas em eventos agudos não responde a essa realidade.

Aqui entram contribuições relevantes. Marcus Pestana alerta que cobertura sem qualidade produz ilusão. Ele defende redes integradas e gestão orientada a resultados. Antônio Jorge afirma que o financiamento é o entrave central da saúde pública brasileira. Sem escala e cooperação federativa, tecnologia não basta.

Dados apresentados por Marcus Pestana no TCU mostram que o Brasil gasta menos em saúde, como proporção do PIB e per capita, do que a média da OCDE. A participação do gasto privado é elevada para um sistema universal. O principal vetor de pressão futura é a incorporação tecnológica sem governança.

É nesse ponto que modernizar deixa de ser discurso e vira obrigação. Digitalização, inteligência artificial, interoperabilidade e telemedicina precisam ser tratadas como infraestrutura básica. Minas saiu na frente com programas como Opera Mais e Valora Minas. Ainda assim, esses instrumentos não foram integrados a uma estratégia estrutural de redução de filas.

A fila dói mais quando é invisível. Transparência humaniza o sistema e aumenta confiança.

A provocação de Antônio Tuccilio fecha o raciocínio: modernizar sem desumanizar é método. Tecnologia organiza processos. Não substitui escuta, responsabilidade profissional e vínculo.

Minas construiu bases importantes. O que falta agora é coragem política para enfrentar gargalos conhecidos.Integrar melhor o sistema, adaptar o cuidado ao envelhecimento e à saúde mental e reduzir filas que ainda machucam a vida real.

Modernizar é inevitável. Humanizar é inegociável. Governar é escolher enfrentar o que ainda não está resolvido.