Rem Koolhaas disse que Tóquio prova que a cidade contemporânea não precisa de memória urbana para funcionar. Essa frase me impactou, pois sempre tive obsessão por me localizar nas cidades. Identificar centros, eixos, hierarquias e monumentos. Caminhar tentando montar um mapa mental, compreender a lógica urbana quase como reflexo, reconhecer símbolos. Depois de quase cem nações visitadas, esse método se tornou automático. Em Tóquio, falhou. A falha foi decisiva. A aceitação do não saber foi o início da leitura correta. Ao não preencher o vazio com respostas apressadas, a cidade começou a se revelar.

Tóquio não se oferece pela imagem. Ela se deixa compreender pelo funcionamento. Essa característica está inscrita desde sua origem. A cidade nasce como Edo, no início do século XVII, escolhida como sede do xogunato Tokugawa por razões administrativas e territoriais. Não havia intenção monumental. Havia função. Quando o imperador se transfere para Edo, em 1868, e a cidade passa a se chamar Tóquio, essa lógica permanece. O poder muda. O método permanece. A cidade continua organizada pelo desempenho.