Você é contra ou a favor da alta da Selic, Paulo Brant?

O elevador da mobilidade social emperrou, e as pessoas perderam as expectativas de melhoria em suas vidas. Tudo isso, em meio a uma onda de inovações

Com os pés fincados em Belo Horizonte, mas de olho em Brasília, preocupo-me com a eleição dos 53 representantes do povo mineiro para a Câmara dos Deputados em 2026. Já disse que tenho um nome para me representar: Paulo Brant, economista e engenheiro. Fiz a pergunta do título a ele. A reposta foi a seguinte:

“Na última quarta-feira, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu elevar a Selic para 14,25% ao ano, uma das maiores taxas de juros do mundo, no intuito de derrubar a inflação, que começa a deslizar perigosamente para fora dos limites estabelecidos. Muita gente me fez ontem essa pergunta, economista que sou. Sem querer evadir-me da questão, pelo contrário, mas tentando ir ao encontro da essência do problema, vou abordá-la a partir de uma perspectiva mais abrangente e promissora.

É um quase consenso que a radicalização política em que vivemos é uma ameaça real aos pilares da nossa democracia, por interditar o diálogo e dificultar o consenso, essencial ao enfrentamento eficaz dos inúmeros problemas do Brasil. O binarismo da política tem a ver com o maniqueísmo e a visão imediatista das discussões entre os economistas. Ou se defendem a irresponsabilidade fiscal e o poder mágico do gasto público, ou se adota uma visão paranoica em que há a demonização dos gastos estatais. Você é contra ou a favor da alta da Selic? Sim ou não?

Eis aqui uma armadilha. De certa forma, é a mesma armadilha que tem travado o Brasil e gerado um desempenho econômico pífio ao longo dos últimos 50 anos. Nesse período, nossa renda por habitante cresceu em média mísero 1% ao ano. O elevador da mobilidade social emperrou, e as pessoas perderam as expectativas de melhoria em suas vidas. Tudo isso, em meio a uma onda de inovações tecnológicas sem precedentes na história humana. A economia perdeu o viço e, com a exceção honrosa do agronegócio, a produtividade do trabalho está cronicamente estagnada.

Vivemos um impasse. A capacidade de produzir bens e serviços não aumenta adequadamente, e o nível dos investimentos é insuficiente. Se a economia cresce um pouco mais, esbarra no seu teto, deflagra-se o processo inflacionário, e o Banco Central aciona o mecanismo doloroso do aumento das taxas de juros, que volta a frear a economia. Eis o círculo vicioso que tem imobilizado o Brasil. Como desatar esse nó?

A economia é chamada por alguns de ‘ciência triste’, ao ser associada à escassez e por evocar sempre a necessidade de contenção, de limites, de restrições. Tenho uma visão distinta e, por isso, tornei-me economista. Para mim, o papel precípuo e nobre do economista é o de vislumbrar e descortinar o progresso, a prosperidade, a riqueza e o bem-estar das nações e das pessoas, a partir do talento, do esforço e da cooperação entre elas.

O Brasil é um poço fundo de possibilidades. Temos de readquirir a energia vital que resgate esse manancial. A economia não deve e não pode ser um jogo de soma zero, que nos aprisiona. Para tanto, a ciência econômica, despida de dogmas, preconceitos e visões ideológicas reducionistas, tem a capacidade de suscitar alternativas e caminhos para o país. Em primeiro lugar, inoculando no debate econômico uma visão de longo prazo, em que as possibilidades se tornem factíveis. Em segundo lugar, explorando as sinergias poderosas das forças empreendedoras do mercado e do poder coordenador e indutor do Estado moderno.

Nessa quadra instável e incerta, mas fascinante, em que vivemos, há um campo imenso de direções fecundas e promissoras para o Brasil. Todavia, precisamos dramaticamente de governos. Precisamos de Governos eficientes e probos, com certeza, mas, sobretudo, lúcidos e percucientes, que apontem direções, que farejem o futuro, que orquestrem a sociedade.

Sem mudarmos a dimensão dos nossos debates econômicos e sem mudarmos o perfil e a essência dos nossos governos, míopes e populistas, continuaremos enredados na armadilha em que nos metemos. E a discutir indefinidamente o tamanho das taxas de juros”.

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