É necessário assumir a responsabilidade direta. Mulheres não podem morrer por serem mulheres
Minas Gerais voltou a registrar, nas últimas semanas, uma sequência de casos que expõem um padrão persistente de violência contra a mulher. Em Mariana, uma jovem e sua filha foram executadas pelo companheiro. Em Santa Luzia, uma mulher foi assassinada dentro de casa. Em Uberlândia, outra foi morta na frente do filho. Os episódios variam na forma, repetem-se na estrutura: homens matando mulheres com quem mantinham vínculo direto.
Os dados confirmam que não se trata de exceção. Nos dois primeiros meses de 2026, Minas Gerais registrou 32 feminicídios consumados, aumento de aproximadamente 33% em relação ao mesmo período de 2025. No ano passado, foram 177 mortes no estado. No Brasil, o total chegou a 1.568 mulheres assassinadas nessa condição.Desde a promulgação da Lei 13.104, de 2015, passamos a reconhecer juridicamente a motivação de gênero nesses crimes. O reconhecimento legal avançou. A realidade não o acompanhou no mesmo ritmo.
A dinâmica desses crimes é conhecida. A maioria ocorre dentro de casa. O agressor, em regra, é companheiro ou ex-companheiro. Existe uma escalada prévia de violência que inclui ameaça, agressões sucessivas, controle e isolamento. O feminicídio é o ponto final de um processo que, em muitos casos, já era visível. O problema central é a capacidade de agir antes que o crime aconteça.
Nesse ponto, o papel dos homens precisa ser colocado com clareza. A autoria desses crimes é majoritariamente masculina, e, ainda assim, o debate público frequentemente trata o tema como pauta exclusiva das mulheres. Essa abordagem é insuficiente. Há comportamentos tolerados socialmente que sustentam esse ambiente: ciúme tratado como demonstração de afeto, controle interpretado como cuidado, violência relativizada como conflito doméstico. A manutenção desse padrão depende de conivência e silêncio. Quem mata mulheres são homens. O enfrentamento também precisa ser assumido por nós.
Ao mesmo tempo, há um problema evidente de estrutura estatal. Minas Gerais possui cerca de 70 delegacias especializadas para 853 municípios. A cobertura é limitada e desigual. Em grande parte do território, o acesso à rede de proteção é precário. Mesmo quando a vítima consegue medida protetiva, a efetividade nem sempre é garantida. Há registros de mulheres assassinadas sob proteção judicial. A política existe. A execução não entrega. Minas Gerais sequer aderiu ao Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios.
Durante meu mandato como vereador em Belo Horizonte, aprovei emenda que garantiu gratuidade no transporte coletivo para mulheres vítimas de violência. Sem acesso, a política não chega. O desafio agora é ampliar a capacidade de proteção antes que o crime aconteça. Dois eixos são claros: serviço perto da mulher e agressor longe dela. No interior de Minas Gerais, esse problema é ainda mais grave. Ao mesmo tempo, é fundamental melhorar o monitoramento das denúncias e a efetividade das medidas protetivas. O uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores é instrumento importante. Segurança pública, nesse caso, é impedir que o agressor chegue perto. Não existe solução única. Existe direção.
Feminicídio não é imprevisível. Na maioria dos casos, é anunciado. O Estado precisa chegar antes. E os homens precisam assumir responsabilidade direta. Mulheres não podem morrer por serem mulheres. É um problema concreto, recorrente e evitável. Pense na mulher que você mais ama. É essa dor que ainda estamos permitindo. E é essa dor que precisa acabar.


