Campo e cidade formam um único sistema econômico e social. Não existe desenvolvimento urbano sustentável sem produção de alimento, nem crescimento do campo sem crédito, infraestrutura e serviços estruturados a partir das cidades. Reconhecer essa interdependência ajuda a tirar o debate do agro do discurso genérico e colocá-lo onde importa: na realidade de quem produz.
Os números do agro em Minas Gerais são robustos. Entre janeiro e novembro de 2025, o agronegócio mineiro exportou US$ 18,1 bilhões, equivalente a 43,7% das exportações totais do estado. O Valor Bruto da Produção agropecuária alcançou R$ 171,8 bilhões, crescimento de 15,2% em relação a 2024. O café respondeu por 56,1% das exportações do agro. Trata-se de resultado construído por organização produtiva, risco assumido e tecnologia aplicados diariamente por quem está no campo.
No caso do café, a leitura exige cuidado. A cultura é bienal e permite estocagem. Em momentos de preços internacionais favoráveis, é racional utilizar estoques guardados em cooperativas ou armazéns próprios. O fator central do crescimento da receita foi a valorização internacional das commodities, não uma política pública estadual estruturada.
Minas Gerais é prova viva da força do cooperativismo. O estado abriga a Cooxupé, sediada em Guaxupé, reconhecida como a maior cooperativa de cafeicultores do mundo. Onde a cooperação funciona, o produtor ganha escala, reduz risco e participa melhor do mercado.
Enquanto a receita externa subia, a situação interna mostrou fragilidades. Entre julho e outubro de 2025, o crédito rural contratado em Minas Gerais somou R$ 20,4 bilhões, queda de 16% em relação ao mesmo período de 2024.O número de contratos cresceu cerca de 4%, indicando pulverização e tíquete médio menor. O problema ocorre junto de inadimplência elevada, juros altos e risco climático crescente, sem fundo garantidor estadual, sem equalização de juros e com seguro rural insuficiente.
A crise do leite expõe o desafio com mais nitidez. Em 2025, a captação cresceu 4,3% em Minas Gerais. As importações alcançaram 2,2 bilhões de litros equivalentes, cerca de 9% da captação nacional. Houve nove quedas consecutivas no preço ao produtor, com perdas superiores a R$ 1 por litro em várias regiões. O leite responde por 15,6% do VBP agropecuário mineiro, cerca de R$ 26,7 bilhões, e sustenta aproximadamente 1,2 milhão de empregos diretos e indiretos.
A resposta passa por produtividade. A média estadual gira em torno de 8,5 litros por vaca, enquanto sistemas tecnificados operam entre 15 e 20 litros. Cerca de 60% da produção vem de pequenos produtores familiares. A política pública correta é assistência técnica contínua, conectividade rural e inclusão tecnológica, com apoio da Embrapa, Epamig, Senar e Sebrae.
O agro mineiro é diverso e completo. Avicultura, suinocultura, cana-de-açúcar, citricultura, cenoura, frutas, florestas plantadas, milho e soja. Tudo conduzido por mãos calejadas que sustentam a economia e exigem respeito à cidadania.
Infraestrutura rural decide renda. Estradas rurais afetam diretamente competitividade, custo e perda. Estados como Paraná e Santa Catarina adotaram programas contínuos de manutenção e pavimentação leve. Minas precisa tratar estrada rural como política econômica.
O campo também precisa de segurança jurídica. Propriedade respeitada, regras estáveis e previsibilidade regulatória dão confiança para investir, produzir e transmitir o trabalho às próximas gerações. O campo é cultura, natureza e trabalho. Defender o agro é defender um modo de vida.
Essa visão nasce da escuta e do respeito a quem produz. Minhas referências são instituições que fizeram o agro brasileiro avançar com ciência, organização e responsabilidade pública. É assim que Minas transforma força produtiva em desenvolvimento duradouro, renda estável e sucessão no campo.