Minas Gerais atravessa uma das temporadas de chuva mais letais dos últimos anos. Juiz de Fora registrou 584 mm apenas em fevereiro, o maior volume já medido para o mês, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. Em três dias, os acumulados superaram 229 mm, 240% acima da média histórica. Em Ubá, 124 mm caíram em seis horas. O Rio Paraibuna transbordou. Encostas cederam. Até o fechamento deste artigo, Minas Gerais somava 54 mortes no período chuvoso.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais apontou drenagem urbana crítica, risco elevado de deslizamentos e solo saturado. O fenômeno foi classificado como “supercélula”. A chuva foi extrema. A estrutura urbana revelou fragilidades.

Antes de qualquer crítica, é preciso reconhecer a solidariedade mineira. Foi assim no Rio Grande do Sul. Mineiros mobilizaram doações, voluntários e caminhões. Não faltaremos ao nosso próprio povo.

Abrimos a sede estadual do MDB, na rua Rodrigues Caldas, 456, em Belo Horizonte, para receber doações destinadas a Juiz de Fora e Ubá. Água sem gás, alimentos não perecíveis, itens de higiene pessoal, roupas de cama e travesseiros.De segunda a sexta, das 8h às 17h. Minas Gerais sempre ajudou. Agora Minas Gerais precisa de ajuda.

Solidariedade é imediata. Planejamento é permanente. Os dados mostram que as despesas do governo de Minas com infraestrutura de combate às chuvas caíram de cerca de R$ 135 milhões em 2023 para aproximadamente R$ 6 milhões em 2025, redução de 96%. Após o desastre, anunciaram-se R$ 38 milhões para Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá. Emergência é necessária. Prevenção é estruturante.

Minas ainda responde à água com canalização, concreto e retificação. A lógica é acelerar o escoamento, elevando o pico de cheia e transferindo risco. Fundos de vale ocupados, impermeabilização extensa e moradias em encostas ampliam exposição.

Existe alternativa técnica. O Benjakitti Forest Park, em Bangkok, inaugurado em 2022, ocupa 720 mil m² no terreno de uma antiga fábrica. O projeto resulta da parceria entre Arsomsilp e Turenscape, de Kongjian Yu, criador do conceito de cidades-esponja. Não é paisagismo ornamental. É infraestrutura urbana.

Lagos interligados, relevo modelado e wetlands artificiais retêm até 128 mil m³ de água. O sistema filtra cerca de 1.600 m³ por dia e devolve água gradualmente em períodos secos. Bangkok abandonou o escoamento rápido e adotou retenção inteligente.

A Zona da Mata exige planejamento por bacia hidrográfica. Áreas alagáveis controladas, bacias de retenção distribuídas, parques lineares, recuperação de matas ciliares e restrição firme à ocupação de áreas de risco. Integração entre defesa civil, planejamento urbano e política habitacional.

Belo Horizonte já demonstrou viabilidade com o Drenurbs e o Parque Nossa Senhora da Piedade. Soluções baseadas na paisagem reduzem risco e qualificam território.

Eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes. A reconstrução custa mais do que a prevenção. A pergunta estratégica é clara: Minas continuará reagindo ou passará a planejar? A água sempre encontrará caminho. Cabe ao poder público desenhá-lo antes da próxima tempestade.