Água, Caxambu, Sul de Minas e oportunidades

Organização do potencial hídrico para desenvolvimento

Caxambu não precisa descobrir vocação. Precisa organizar capacidade. O Sul de Minas Gerais concentra um dos maiores conjuntos hidrominerais do planeta, com diversidade química rara e tradição histórica consolidada. Poucos territórios possuem base tão clara para estruturar turismo, saúde e economia de serviços de alto valor. A diferença entre os lugares que prosperaram e os que estagnaram não está na qualidade da água. Está na capacidade de transformar recurso em sistema.

O mundo já testou esse modelo. As cidades do conjunto reconhecido pela UNESCO como “Great Spa Towns of Europe” operam há décadas como economias organizadas em torno da água. Baden-Baden registrou 938 mil pernoites em 2024 e movimenta cerca de €300 milhões anuais com turismo. Vichy ultrapassa 2,1 milhões de noites turísticas e gera mais de €70 milhões de impacto econômico direto. Bath recebe mais de 6 milhões de visitantes por ano e injeta quase £500 milhões na economia local. Karlovy Vary mantém fluxo internacional consistente, apoiado em infraestrutura, paisagem e programação. Esses números não são exceção. São consequência de um modelo estável.

Esse modelo evoluiu para operações ainda mais sofisticadas. Blue Lagoon transformou um ativo natural em marca global e registrou receita operacional de €115 milhões em 2024. Therme București tornou-se destino autônomo, com mais de 1 milhão de visitantes anuais e certificação ambiental internacional. Rotorua estruturou o wellness como política econômica e movimenta US$277 milhões por ano, sustentando mais de 1.300 empregos. O Global Wellness Institute indica que o turista internacional de bem-estar gasta, em média, 41% a mais por viagem. Água deixou de ser paisagem. Passou a ser indústria.

O Brasil conhece esse caminho. Caldas Novas consolidou-se como principal destino hidrotermal do país, com milhões de visitantes e base econômica estruturada em hotelaria, parques aquáticos e serviços. Poços de Caldas organizou seu território a partir do termalismo, combinando arquitetura, cultura, natureza. Foz do Iguaçu mostrou como integrar natureza, operação, turismo com padrão internacional. Há referência nacional suficiente. O que falta em Caxambu não é exemplo. É execução.

O diagnóstico é direto. O Parque das Águas funciona abaixo do seu potencial econômico, urbano e simbólico. A permanência média do visitante é curta, a integração com a cidade é limitada, a programação é insuficiente, a operação é fragmentada. O ativo existe, a gestão não acompanha.

A transformação exige método e decisão. Primeiro, instituir uma autoridade única de gestão, com metas anuais de receita, manutenção, permanência, visitação. Segundo, executar requalificação imediata baseada em limpeza, iluminação, segurança, sinalização, mobiliário, recuperação paisagística. Terceiro, estruturar o parque como circuito contínuo, conectando fontes, percursos, descanso, experiências. Quarto, integrar parque e cidade com acessibilidade, comércio, hotelaria, mobilidade. Quinto, estabelecer operação profissional de wellness por concessão ou parceria, garantindo padrão, previsibilidade, escala. Sexto, criar calendário permanente com eventos, rituais, programação cultural.

Esse processo depende de liderança estadual. Cabe ao Governo de Minas Gerais coordenar o arranjo institucional, estruturar financiamento, viabilizar parcerias, garantir continuidade. O município sozinho não consegue transformar um ativo dessa magnitude em sistema econômico complexo.

Caxambu não está atrasada. Está subutilizada. Quando cidades similares organizaram água, cultura, natureza, transformaram autoestima, emprego, renda. Quando trataram o parque como ornamento, ficaram irrelevantes. O Sul de Minas Gerais já possui o que o mundo procura. Falta fazer funcionar.

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Gabriel de a a z

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