O político honesto custa caro

No ambiente atual, há um governador com máquina pública e senadores com mandato. Alguém sem cargo enfrenta uma assimetria brutal de alcance e exposição

Nos últimos meses, o Brasil foi tragado pelo caso Banco Master. Há cifras bilionárias, investigações, memes, mensagens vazadas e personagens que parecem saídos de um roteiro de ficção. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição em novembro de 2025 por deterioração da liquidez e descumprimento de normas, o Fundo Garantidor de Créditos iniciou pagamentos a centenas de milhares de investidores dentro do limite de R$ 250 mil e, em poucas semanas, bilhões de reais já haviam sido devolvidos, evidenciando o tamanho do problema e a velocidade com que ele capturou a atenção pública. Aliás, tanto o operador do mensalão em 2005, Marcos Valério, quanto o nome mais associado ao Banco Master em 2025, Daniel Vorcaro, estão ligados à mesma cidade onde nasci: Belo Horizonte. Duas décadas se passaram.

Essa coincidência geográfica expõe uma ironia incômoda. Estou na política há vinte anos, desde 2006, atravessando sucessivas ondas de denúncias, escândalos, investigações e quedas públicas, sem nunca ter figurado em nenhuma delas. Vi a repetição de um padrão que combina dinheiro, poder e promessa de vantagem futura. Esse padrão não nasce do acaso. Nasce de uma engrenagem concreta que estrutura campanhas eleitorais no Brasil.

Campanha custa, e custa muito. Em Minas Gerais, com 853 municípios, construir presença exige agenda, comunicação, deslocamento, equipe e tempo. Exige formulação programática, gravação de vídeos, interlocução com lideranças e organização política. Exige combustível e estrutura, disciplina e método, presença e repetição. Nada disso se faz apenas com boa vontade. Se para ser candidato a prefeito de Belo Horizonte já custou, imagine agora, pré-candidato a governador de Minas Gerais. Ainda faltam seis meses até a eleição.

É nesse ponto que o debate público costuma falhar. As pessoas querem contribuir com ideias, participar de soluções em áreas como educação e saúde, o que é legítimo. Ainda assim, ignoram o elemento central: a capacidade de fazer essas ideias circularem num território complexo, diverso e enorme. No ambiente atual, há um governador com máquina pública e senadores com mandato. Alguém sem cargo enfrenta uma assimetria brutal de alcance e exposição. Soma-se a isso o momento dos partidos, concentrados na montagem de chapas proporcionais para deputado federal, o que desloca prioridade e recurso. O resultado é simples: ser preparado não basta, ser conhecido torna-se condição de sobrevivência.

É aqui que o escândalo encontra a realidade. Quando um caso como o do Banco Master domina a conversa nacional, a atenção se fixa no espetáculo. Falam das cifras e dos detalhes mais chamativos, enquanto a pergunta estrutural fica em segundo plano. Por que tantos projetos políticos orbitam empresários dispostos a financiar campanhas em troca de influência ou vantagem? A resposta não está apenas na moral individual. Está na estrutura de incentivos.

Deslocamento, produção de conteúdo e visibilidade custam. O custo aumenta quando alguns se habituaram a jatinhos e facilidades. A tentação aparece quando alguém oferece encurtar esse caminho. Eu nunca aceitei.

Há um custo muito caro para o político que entra em uma disputa sem se vender. É um custo que, pelo meu caráter e pela minha índole, eu prefiro pagar. Eu custo caro e pago o preço.

Quando alguém escolhe permanecer limpo, ele enfrenta uma lógica que favorece quem já dispõe de estrutura consolidada, mandato ativo ou recursos abundantes. Mesmo escutando que preparo não falta, o recurso falta. E a situação se agrava quando a atenção pública se fragmenta entre o BBB, em sua reta final, o escândalo do momento e a fadiga de um eleitor que passou a acreditar que todos são iguais. Não somos.

O caso Banco Master deve ser investigado com rigor e profundidade. Ao mesmo tempo, é preciso evitar que ele funcione como distração confortável, explorada por quem não apresenta soluções reais e transforma a política em entretenimento travestido de jornalismo.

Existe uma verdade mais profunda que atravessa esse episódio e muitos outros antes dele. No Brasil, a corrupção não encarece apenas o Estado. Ela encarece a honestidade.

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Gabriel de a a z

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