Dois brasileiros que tornaram as cidades mais democráticas

Paulo Mendes da Rocha e Jaime Lerner dedicaram suas vidas a tornar os espaços urbanos mais acessíveis

A democracia só existe porque as cidades existem. Não fosse a migração humana do campo para o ambiente urbano, a história não teria registrado o nascimento do sistema democrático em Atenas, na Grécia Antiga. Tampouco, teria presenciado o ressurgimento dos ideais democráticos na Londres do século XVI e sua expansão pelas colônias norte-americanas no século XVIII.

Por essa razão, democrata que sou, presto aqui minha homenagem a dois brasileiros falecidos em maio, em um curto intervalo de tempo: os arquitetos e urbanistas Paulo Mendes da Rocha e Jaime Lerner, que dedicaram suas vidas a tornar as cidades mais democráticas e acessíveis. Dois nomes que, além da carga simbólica que carregam, por causa da importância de ambos para o desenvolvimento de cidades como hoje as conhecemos, exigem que o legado de urbanismo deixado por eles não seja condenado ao esquecimento.

O capixaba Paulo Mendes da Rocha, nascido em Vitória, em 1928, e morto em 23 de maio deste ano, era arquiteto, urbanista e professor. Ao longo da carreira, estabeleceu uma estreita relação com projetos de construção e restauração de importantes espaços culturais, como o Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE) e a reforma da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Também tornou-se conhecido pelos muitos prêmios que conquistou. O mais importante é o Prêmio Pritzker, considerado o “Nobel da Arquitetura”. Foi laureado em 2006. Apenas outro brasileiro recebeu essa honraria: Oscar Niemeyer.

A preocupação com o viés social do urbanismo é outra marca forte na trajetória de Paulo Mendes da Rocha. Foi um dos três arquitetos responsáveis pelo projeto do Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado/Parque Cecap, erguido em Guarulhos, na década de 60, destinado a receber 50 mil moradores. Cassado pelo AI-5, foi afastado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU) em 1969. Só retornou às atividades do magistério em 1980. Foi um dos precursores do conceito de sustentabilidade, ao defender a estreita relação entre a arquitetura e a natureza.

Já o curitibano Jaime Lerner, nascido em 1937, morreu quatro dias após Paulo Mendes da Rocha, em 27 de maio. Além de arquiteto e urbanista, exerceu a política praticamente por toda a vida. Foi prefeito de Curitiba por três ocasiões (1971–75, 1979–84 e 1989–93) e governador do Paraná por dois mandatos (1995–1998 e 1999–2002).

Como administrador municipal, colocou em prática conceitos revolucionários de ocupação urbana e mobilidade. Um deles foi o fechamento da Rua XV de Novembro ao tráfego de veículos. A via recebeu calçamento, ganhou o nome de Rua das Flores, destinada exclusivamente a pedestres.

Em 1974, Lerner promoveu a integração do sistema de transporte urbano em Curitiba, com venda antecipada de bilhetes, estações fechadas e embarque em plataformas. Nascia o BRT, que transformou o transporte público em diversos continentes. O sistema hoje é adotado em 80 países e 200 cidades ao redor do mundo. Em Belo Horizonte, por exemplo, o BRT Move só entrou em operação em 2014. O político paranaense ainda investiu na coleta seletiva de lixo e na criação de cooperativas de catadores, na década de 90.

Sua visão de futuro e a implementação de conceitos de mobilidade e sustentabilidade deixaram uma herança que deve ser preservada e, mais que isso, ampliada.

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