Mulheres transformadas em Estado dentro de casa
Toda mãe conhece o cansaço. A mãe atípica conhece a burocracia do cuidado. Ela organiza consulta, crise sensorial, escola, farmácia, fila do SUS, laudo, medicamento, plano de saúde, reunião pedagógica, terapia, transporte e tenta trabalhar como se nada disso tivesse peso. No Dia das Mães, o gesto honesto não é apenas parabenizar. É perguntar por que tantas mulheres foram transformadas em Estado dentro de casa.
Mães atípicas são mães de adolescentes, crianças e jovens com altas necessidades de apoio, autismo, deficiência, doenças raras, paralisia cerebral, síndrome de Down, TDAH ou transtornos do neurodesenvolvimento. Família atípica é expressão ainda mais precisa, porque o diagnóstico muda casamento, escola, futuro dos irmãos, renda, saúde mental, sono e trabalho. E essa sobrecarga pesa ainda mais quando a mãe, além de atípica, é solo.
O Censo 2022 do IBGE identificou pela primeira vez o diagnóstico de autismo no Brasil: 2,4 milhões de pessoas, 1,2% da população. Em Minas Gerais, são cerca de 228,6 mil pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. O Censo apontou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no país, 7,3%. Na PNAD Contínua 2022, escolarização de crianças de 6 a 14 anos com deficiência era de 95,1%, contra 99,4% entre crianças sem deficiência.
Quem dá aula percebeu essa mudança antes de muitos governos. Sou professor universitário e convivo há anos com alunos atípicos em sala. As instituições tentam se adaptar, as famílias cobram com razão, os professores aprendem no caminho e a formação docente ainda é insuficiente. A inclusão chegou à sala antes de chegar ao orçamento, à formação e à gestão.
A mãe atípica enfrenta cinco camadas adicionais: custo dos medicamentos e terapias; negociação com a escola, porque matrícula não é inclusão; perda de renda; peregrinação pelo diagnóstico; e solidão emocional de cuidar sem descanso, sem rede e sem reconhecimento. Quando o medicamento falta, quando a farmácia pública fica longe ou quando a informação não chega com clareza, o problema deixa de ser apenas médico. Vira angústia, custo, deslocamento e tempo perdido.
O Brasil tem base legal relevante. A Lei Berenice Piana, Lei Federal 12.764/2012, reconheceu a pessoa com TEA como pessoa com deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão, Lei 13.146/2015, assegura sistema educacional inclusivo. A Lei Romeo Mion, Lei 13.977/2020, criou a Ciptea.
Minas Gerais também possui instrumentos importantes. A Secretaria de Estado de Saúde informa 181 serviços de reabilitação intelectual no SUS. Na educação, a Lei 24.844/2024, alterada pela Lei 25.169/2025, trata de estudantes com altas habilidades ou superdotação, deficiência e TEA.
O problema é que esses instrumentos ainda não formam uma jornada simples. Assistência social, educação, saúde, trabalho e transporte aparecem como balcões separados. A mãe vira advogada, amortecedor emocional, gerente de caso, motorista, secretária e terapeuta informal. Há situações em que um mesmo monitor acompanha mais de uma criança atípica, com necessidades diferentes, no mesmo ambiente. Isso fragiliza o aluno, pressiona o professor e abandona a própria ideia de inclusão.
O mundo oferece caminhos. A Organização Mundial da Saúde desenvolveu o Caregiver Skills Training. O Canadá lançou em 2024 sua primeira estratégia nacional de autismo. Singapura trabalha com planejamento de longo prazo por meio do Enabling Masterplan 2030.
Minas Gerais pode aprender. O Estado precisa de Plano Estadual de Apoio às Famílias Atípicas; Linha de Cuidado da Família Atípica; Centros Regionais de Apoio; formação de cuidadores, mediadores, monitores e professores; busca ativa na primeira infância; farmácia pública mais acessível; fila transparente de reabilitação; política de respiro familiar; e espaços permanentes para que mães atípicas digam o que precisam.
A mãe atípica não pede nenhum privilégio. Ela quer que o Estado pare de tratar sua sobrecarga como destino privado. O cuidado é uma infraestrutura. Quando falha, a casa absorve o colapso. Quando funciona, a criança aprende, a família respira e a sociedade se torna menos cruel.


