A engenharia é o elo perdido entre intenção e resultado. Entre anúncio e entrega. Entre promessa e obra
Sou formado nas áreas de humanas. Graduação em comunicação social com duas habilitações, graduação em direito, mestrado em direito, doutorando em direito, professor. E, em sala de aula, quando os alunos entram, costumo provocar: o que vocês estão fazendo aqui? Em tom de brincadeira, acrescento que não precisamos de mais advogados. Há uma referência recorrente ao Japão, frequentemente citado como uma das nações com menor número de advogados per capita entre economias desenvolvidas, com forte cultura de resolução extrajudicial de conflitos e baixa litigiosidade. A comparação serve como provocação. Minas Gerais já tem excelentes advogados em quantidade. O que está em falta é outra coisa.
Minas Gerais precisa ouvir engenheiros. E inserir a engenharia como base do governo. O abandono da sede da antiga Faculdade de Engenharia da UFMG talvez seja um símbolo da atual condição mineira. Um espaço que formou tantos profissionais incríveis hoje está esquecido.
Fui ao encontro do CREA-MG e da Sociedade Mineira de Engenheiros com um conjunto de 15 perguntas. Perguntei sobre desperdício de recursos, extensão rural, falhas de planejamento, gargalos estruturais, governança técnica, logística, meio ambiente, mineração, prevenção de desastres, prioridades em infraestrutura, qualidade das obras públicas, saneamento e valorização profissional. Ouvi respostas diretas, técnicas, convergentes.
O diagnóstico é claro. O Estado falha antes da obra começar. Falta projeto. Falta engenharia. Há drenagem insuficiente, logística desintegrada, matriz energética pouco resiliente, rodovias degradadas e saneamento incompleto. Há centenas de obras paradas por ausência de projetos executivos consistentes. Há desperdício com gestão preventiva em vez de manutenção reativa. Há políticas públicas que começam sem hidrologia, risco, solo e tráfego. Há municípios sem capacidade técnica instalada. Há planejamento urbano dissociado da água. Há economia verde pouco estruturada e territórios mineradores tensionados.
A convergência entre as instituições impressiona. Ambas apontam que o problema central não é falta de recurso. É falta de projeto pronto. Falta maturidade técnica. Falta transformar conhecimento em decisão.
As soluções também são objetivas. Adotar matriz de risco, criar um banco estadual de projetos estruturados, exigir projeto executivo antes da licitação, implantar planejamento de longo prazo com carteira madura e orçamento realista com fiscalização qualificada. Fortalecer a engenharia pública com carreira de Estado, concursos e valorização profissional. Estruturar manutenção preventiva de escolas, hospitais, pontes e rodovias. Integrar modais logísticos, com corredores e nós eficientes. Tratar segurança hídrica como eixo central, com drenagem, gestão por bacia e prevenção de desastres. Apoiar tecnicamente os municípios com capacitação e coordenação estadual. Incorporar tecnologia, do BIM ao monitoramento em tempo real. Instituir governança técnica permanente.
Na agropecuária, a agronomia e a engenharia aparecem como vetores de produtividade com sustentabilidade, integração de sistemas produtivos, recuperação de áreas degradadas e uso eficiente da água. Na mineração, a exigência é técnica e clara: eliminar riscos, planejar fechamento e reduzir impacto. Na gestão ambiental, integrar ciência, economia e território.
Valorizar engenheiros não é pauta corporativa. É política pública. Obra sem responsável técnico gera atraso, desperdício e risco. Estado sem capacidade técnica gera improviso. Improviso custa caro. Em dinheiro e em vidas.
Minas Gerais não sofre por falta de ideias. Sofre por falta de execução qualificada. A engenharia é o elo perdido entre intenção e resultado. Entre anúncio e entrega. Entre promessa e obra. Se quisermos um Estado que funcione, que entregue, que resolva, o caminho está dado. Coordenar antes de reagir. Manter antes de colapsar. Planejar antes de gastar. Projetar antes de licitar. Minas Gerais precisa dos engenheiros. E precisa tratá-los como aquilo que são: parte da solução.


