Organização do potencial hídrico para desenvolvimento
Neste 1º de maio, volta à memória a forma como Getúlio Vargas iniciava seus discursos: “trabalhadores do Brasil”. Era a cidadania entendida como emprego formal, protegido e urbano. O Ministério do Trabalho foi criado em 1930; em 1943, a CLT organizou esse pacto. Quase um século depois, a pergunta é outra: os postos de trabalho de hoje oferecem futuro e pagam a vida real?
A Pnad Contínua do IBGE mostra que 2025 terminou com desocupação anual de 5,6%, a menor desde 2012; a população ocupada chegou a 103 milhões e a renda média, a R$ 3.560. O dinheiro entra e o mês continua. No IPCA de março, Alimentação e bebidas e Transportes responderam por 76% da inflação. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias chegou a 49,9% e o comprometimento da renda, a 29,7%.
A taxa de desemprego precisa ser lida com honestidade. Pelo IBGE, estar desocupado exige ausência de trabalho, disponibilidade e procura. Entregador de aplicativo não aparece como desempregado se está ocupado ou desistiu de procurar vaga. É bom que gere renda; todavia, não é igual a quem tem banheiro, escala previsível, local fixo, previdência automática e seguro-desemprego. Muita gente trabalha sem ter onde ir fazer xixi.
Essa é a nova economia que o Estado lê com óculos velhos. O governo Lula, formado na cultura sindical dos anos 70, tende a enxergar trabalho pela carteira e pelo sindicato. O governo Zema, ao celebrar 1 milhão de empregos formais em Minas, cai em armadilha parecida: tratar CLT como sinônimo de trabalho. No Palácio Tiradentes, no caminho do aeroporto, o adesivo comunica conquista; contudo, deixa de fora quem trabalha por conta própria, por demanda, por plataforma ou por safra.
Segundo o IBGE, havia 1,7 milhão de pessoas em plataformas digitais de serviços em 2024. Entre condutores por aplicativo, só 25,7% contribuíam para a Previdência; entre motociclistas plataformizados, 21,6%. A resposta passa por banheiros públicos, bases de apoio, previdência portátil, regras tributárias simples e seguro por demanda.
Minas Gerais precisa transformar atração de investimento em política de trabalho. Com mais de R$ 500 bilhões privados atraídos, a pergunta é que carreira abre, que salário paga e que talento mineiro forma. Empresa incentivada deve contratar jovens locais, criar vagas de aprendiz, estágio e trainee, formar mulheres para áreas técnicas e publicar salário médio por função.
Muitos jovens começam por funções que a IA já reorganiza. Segundo a OIT, um em cada quatro empregos no mundo está exposto à IA generativa. Os programas de formação devem preparar os mineiros para conviver e aumentar a produtividade com as novas ferramentas.
Até mesmo no campo, as novas tecnologias podem facilitar a vida de quem trabalha. A Emater-MG deve ser base: sua assistência técnica alcança a maioria dos municípios mineiros. Com treinamento específico, a tecnologia ajuda em controle de custos, crédito rural, emissão de notas, prevenção de pragas, previsão climática e venda direta. Tecnologia deve ser renda para o pequeno produtor.
Há ainda a desigualdade entre homens e mulheres. Segundo o 5º Relatório de Transparência Salarial, mulheres recebem 21,3% a menos que homens. Igualdade exige auditoria salarial, auxílio-creche, critérios públicos de promoção, jornada flexível, licença parental equilibrada e punição para diferença injustificada.
Para quem está na CLT, uma posição clara minha: escala 5×2 é o caminho. Vida além do trabalho. Descanso e previsibilidade também são parte do salário. Diminuir o endividamento exige educação financeira, que incluí nas escolas de Belo Horizonte na função de vereador, portabilidade de crédito e renegociação de dívida cara. Diminuir o custo de vida exige baratear alimentação, habitação, saúde e transporte com abastecimento, compras públicas, logística e regulação eficiente.
Jovens, mulheres e trabalhadores do Brasil pedem futuro: emprego com aprendizagem, remuneração justa e renda suficiente para atravessar o mês. Não é pedir muito.


