O Brasil real estilhaçado

Versus o país virtual entrincheirado

Em 27 de fevereiro de 2021, ao sair de um jantar no centro de São Paulo, fui roubado por um grupo numeroso. Os episódios na região aumentam desde então. Um inquérito foi aberto, sem conclusão. Além do roubo de um celular, fraturas na órbita do meu olho direito e no nariz. Diante das muitas cirurgias, decidi desativar as minhas mídias sociais, pois não via motivação em me postar com o rosto costurado. Depois, confesso ter saboreado a vida sem elas…

Hoje, agradeceria aos responsáveis. Não estou sendo irônico. Com os procedimentos cirúrgicos, foi também verificado um desvio de septo, já corrigido, que diminuía muito a minha oxigenação. Outro sono. Outra vida. Ainda, estar sem perfil no Instagram, no TikTok e no Twitter, dentre outras, além de ter abandonado praticamente todos os grupos de WhatsApp, fez um bem incalculável a mim. Pretendo retornar às mídias sociais, até pela enorme cobrança para que eu o faça, contudo as utilizarei de forma aprimorada.

O que sei é que me livrei, mesmo que temporariamente, do horripilante ambiente eleitoral virtual que se criou no Brasil, cujo aspecto comparo com as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918.

Por quatro anos, cavando e escavando, entrincheirando-se, morrendo, matando, as pessoas viveram um conflito, que pouco ou nada avançava nos territórios, diante de um ambiente hostil e inóspito, cujo resultado foi, além de um território rasgado, 19 milhões de mortos.

Por quatro anos, mentindo e xingando, odiando-se, absorvendo, postando, os brasileiros viveram um conflito. Com mortes também. Entrincheirados nas suas telas de celular, milhões de militantes se dedicam a ser fios condutores de absurdos. A tática, cujo principal expoente chama-se Steve Bannon, foi resumida por ele numa frase: “flood the zone with shit”. Em bom português… “inunde tudo com merda”.

Qual foi o tema de ontem? O de anteontem? O da semana passada? Há confusão permanente. Há método, que usa sobretudo o WhatsApp, que não é uma mídia social, mas rede de distribuição de conteúdo, para criar uma… guerra.

O contrário de guerra não é paz. É política, a forma não violenta de resolvermos diferenças. Qualquer um que faça analogias militares com a eleição considerando que cidadãos são soldados colabora e quer, ainda que por ignorância, cenas como a do último domingo em Belo Horizonte, quando Pedro Henrique Dias Soares, de 28 anos, foi morto por um bolsonarista ao celebrar a vitória do presidente democraticamente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.

Enquanto isso, a realidade se impõe. Após a eleição, milhões de pessoas sem acesso à internet sentem fome. Muitas usam crack. E roubam celulares para alimentar seu vício em centros urbanos. Há uma urgência por reformas de todo tipo e um mundo num contexto pós-pandêmico com uma fila de problemas a resolver.

Para isso, um governo foi eleito. Numa democracia, é fundamental que exista uma oposição que aponte erros e soluções. Se ela for exitosa, pode substituir esse governo em 2026. Se ela se confundir com os idiotas golpistas que bloquearam rodovias nesta semana pedindo uma repugnante intervenção militar, a chance de o próximo governo ser reeleito rumo a 2030 aumenta.

Somemos numa rede democrática com bom senso firmada na resistência pela paz. Os hegemônicos a favor do presidente eleito (que não são todos que votaram nele) e os agitadores pelo caos do autocrata derrotado (que não são todos que votaram nele) estarão dispostos a seguir conduzindo o conflito. É nosso papel impedi-lo. Não podemos nos entrincheirar virtualmente. Precisamos avançar na realidade.

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Gabriel de a a z

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