Receituário urbano

Acesso às áreas verdes da cidade é um serviço à saúde

Vamos falar de saúde de um jeito diferente. O que há numa receita médica? O que é mais comum esperar, nesses casos, é que a prescrição inclua uma série de comprimidos tradicionais. Gosto de buscar exemplos de sucesso pelo mundo, e uma das iniciativas inspiradoras que encontrei é sobre isso.

Em Washington DC, capital dos Estados Unidos, a iniciativa DC Park Rx prescreve parques. As receitas médicas de atividades ao ar livre são destinadas ao tratamento de doenças crônicas, especialmente cardíacas e mentais. A experiência é baseada em estudos científicos que constatam que o tempo em contato com a natureza reduz a ansiedade, melhora o foco e pode inclusive ser útil para crianças com déficit de atenção.

Passar tempo em áreas verdes também comprovadamente reduziu a pressão arterial e índices de cortisol no corpo. Tanto é que, mesmo quando ajustado para excluir outros fatores socioeconômicos, quem vive próximo de parques tem índices de mortalidade reduzidos. Dados. Fatos. Da minha janela, vejo que o Parque Municipal Américo Renné Giannetti segue abrindo tarde e fechando cedo. Não adianta falar, pelo jeito. Parece que a prefeitura acha que a área deve ser mesmo só para quem não trabalha… um absurdo. A Câmara Municipal vai começar a tomar providências mais efetivas para ampliar o uso desse espaço pela população. O espaço não é um quintal privado da prefeitura. É do povo, ora. Sequer deveria ter grades.

O pensamento de que áreas verdes fazem bem à saúde já é bem aceito no Brasil. A própria Prefeitura de Belo Horizonte possui atividades de promoção da saúde, como o Lian Gong, prática corporal inspirada na medicina tradicional chinesa, implantado no SUS/BH em 2007, e o programa Vida Ativa, da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, que promove atividades físicas e de socialização com foco na população com mais de 50 anos. Então o que falta para que as pessoas tenham mais acesso aos parques?

A distância física geralmente é apontada como a maior dificuldade para que a população frequente áreas verdes. Em Belo Horizonte, muita gente considera que está longe dos parques. Na verdade, sempre há algum parque ou área verde por perto. Entretanto, os mais convidativos são sempre os que estão na cabeça dos cidadãos. Outros são apenas áreas verdes que, por falta de conservação e gentilezas urbanas, não são atrativos para os belo-horizontinos. O caso mais evidente é o do zoológico: depois de tantos relatos de animais em condições precárias e da falta de estrutura para receber visitantes, o local acabou se tornando sede de um passeio triste. Providências, prefeitura?

Não faltam exemplos pelo mundo: sempre garantindo o pressuposto básico de permitir acessos gratuitos à população, e nunca cobrando ingresso, os parques ainda podem ser financiados por exploração privada de atividades como brinquedos, lanchonetes, restaurantes e estacionamento.

Em Belo Horizonte, claro, sempre insisto que falta inteligência de gestão. Os campos esportivos ficam com a Secretaria de Esportes e Lazer, as praças são cuidadas pela Secretaria de Obras e Infraestrutura, e os parques são gerenciados por uma autarquia vinculada à Secretaria de Meio Ambiente. A Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica não cuida, por exemplo, da praça da Liberdade, mas mistura zoológico e cemitérios entre as suas atribuições. Tendo que cuidar tanto da preservação ambiental quanto dos espaços para visitantes, acaba não fazendo nem um, nem outro. E as prestações de serviços dentro desses espaços, que deveriam acabar gerando recursos para o município e financiando a preservação dos próprios parques, ficam para trás.

Os desafios para tornar os parques mais frequentados são parecidos com aqueles que enfrentamos para tornar a cidade mais caminhável: é preciso oferecer pistas seguras, sombra, locais de descanso, bebedouros e banheiros limpos. Uma vida ativa não pode ser um remédio amargo.

Quantos homens em Belo Horizonte morreram de infarto no ano passado? Isso se descobre nos dados da prefeitura. Quantos homens em Belo Horizonte poderiam ter deixado de morrer de infarto no ano passado? Isso só saberemos quando o estímulo à atividade física for uma política verdadeira de saúde e prevenção para o povo. Prevenir segue sendo o melhor remédio.

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Gabriel de a a z

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